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Patrões & Empregados

por Marco Neves, em 17.03.14

Ela: O que me irrita é essa esperteza saloia das empresas: toca a fugir aos impostos, a reduzir ordenados, a despedir sem mais...

 

Ele: Tu sabes que tenho uma empresa, não sabes?

 

Ela: Sim, claro. Por isso é que te estou a dizer isto, para ver se acordas.

 

Ele: Olha, posso dizer-te, pelas outras não sei, mas na minha empresa não fugimos aos impostos...

 

Ela: Isso dizes tu...

 

Ele: Achas que assim, despido, tenho razões para mentir?... Não fugimos, e olha que é difícil! As regras são tantas...

 

Ela: Ora, se tens uma empresa, tens quem te faça isso.

 

Ele: Não tenho não. Sou eu que faço tudo. A minha é micro...

 

Ela: Pela conversa há pouco, no bar, parecia que tinhas uma grande empresa.

 

Ele: É uma grande empresa, mas não é uma empresa grande...

 

Ela: Engraçadinho.

 

Ele: E depois estava a tentar levar-te para a cama, minha querida.

 

Ela: Ok, é justo.

 

Ele: Estava a dizer-te: não fugimos; diminuímos os ordenados, porque não tinha outra solução.

 

Ela: Diminuias o teu, por exemplo. Ou tiravas aos lucros.

 

Ele: Não tenho lucros há três anos. E o meu ordenado é o primeiro a descer.

 

Ela: Deves ser o único!...

 

Ele: Não sei. Duvido. Não sou assim tão especial. Mas, como te dizia, desço ordenados, sim, para salvar a empresa. Despedir? Já tive de despedir, sim, mas é preferível acabar com a empresa toda?

 

Ela: Despediste para poupar e para ganhar mais, só isso.

 

Ele: Se soubesses, verias a injustiça do que dizes.

 

Ela: Coitadinho!...

 

Ele: Não vale a pena. Acredita que é mais difícil do que pensas. E que as empresas são necessárias. E que em Portugal são quase todas pequenas (infelizmente, para te dizer a verdade). E que muitos dos patrões estão ali, a trabalhar todos os dias, sabendo que arriscam tudo.

 

Ela: Ouve-me, sê mas é mais patrão aqui e vê lá se pões isto a andar outra vez, que me está apetecer outras conversas.

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Dá-me só um beijo, por favor

por Marco Neves, em 25.02.14

Sim, eu sei que não te lembras de quem eu sou, mas o que queres que te diga? Serei assim tão diferente desses todos que conheces e que, diz-me lá se não é verdade, beijas ao fim duns minutos de conversa? Sim, eu sei que não pode ser assim, que tens todo o direito de estar indignada. Mas ouve-me: só quero mesmo um beijo teu. Um beijo, único e solitário, que será o fim e o início da minha vida. Vou explicar-te o que se passa. Andámos juntos na faculdade. Sim, exacto. Eu ficava lá muito atrás, a olhar para os teus cabelos soltos por cima dos ombros, e sei que chegaste a usar os meus apontamentos, o que foi uma das grandes vitórias desses meus anos de faculdade. Adorava-te como se adoram as estátuas. Fui olhando para ti, qual Beatriz ou Dulcineia, e eu pobre rapaz atrapalhado, oculado, entristecido, sem força nem pendor de grandes declarações, fui-me afastando, olhando timidamente para os teus amores e desamores. Depois, um dia, na fila para o almoço, falámos durante uns bons cinco minutos e riste-te — e, à noite, sonhei que estava ali o meu grande amor e que tudo isto era um filme. Pois, não era. Nunca mais falámos, o curso acabou, e a minha obsessão começou. Não deixava de pensar em ti. Pedi-te amizade no Facebook e aceitaste e todos os dias fui espreitando os teus dias e a tua vida. Até que me convenci que tinha de terminar com isto. Que tu eras uma droga que me deixava atordoado e não me deixava mudar de vida ou até mudar de eu, porque era eu o meu problema. Assim fiz. Desamiguei-te, abandonei-te na minha cabeça, e assim só à noite, durante os sonhos em que não posso controlar o que penso, te via e te amava como sempre. Mas os sonhos começaram a rarear. Foste desaparecendo da minha vida. Há uns bons oito meses, deixei de pensar em ti. Por fim...

 

Pois agora, como sabes, tornaste-te uma modelo famosa, apareces em todos os cartazes, todos os autocarros, todos os sítios desta cidade infernal. Foi a pior recaída que um homem pode ter — e preciso mesmo de te beijar, para que eu perceba que tu não me amas — beija-me, por favor, e prova-me que não me amas. Ou então insulta-me, ou insulta-te, ou faz qualquer coisa para dar cabo deste enguiço. É só um beijo, não custa nada. Depois nunca mais me vês e isto acaba. A minha vida há-de começar.

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§ Ucrânia (ela)

por Marco Neves, em 20.02.14

És tão, mas tão inocente... Achas mesmo que aquilo que se passa em Kiev é desejo violento de entrar numa coisa tão sem sal como a União Europeia? Aquilo é luta fraticida entre os russofalantes e os nacionalistas ucranianos. Não me venhas com tretas.

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§ União Europeia (ele)

por Marco Neves, em 19.02.14

Já viste, querida: nós a queixarmo-nos tanto da União Europeia e os ucranianos a morrer na rua pelo direito de serem europeus. Somos uns meninos mimados, é o que é. Temos países democráticos, desenvolvidos, com alguns problemas, e queixamo-nos até daquilo que só pode ser visto de forma positiva: do facto de tantos poderem sair do país para procurar emprego noutro lado da União Europeia. Temos paz, prosperidade mesmo nestes tempos difíceis, um Estado social que, com mais ou menos ataques, está aqui... E temos pessoas a morrer para poder entrar. Depois, temos os ricalhaços enjoados a querer sair, porque é mais excitante voltar atrás e sermos todos, de novo, cada um por si.

 

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§ Oi?

por Marco Neves, em 18.02.14

Recebi nas "reacções" do Sapo um link para este post, que, na realidade, não parece ter link nenhum para um post deste humilde blog. 

 

Lendo-o, dá a vaga sensação de ser uma crítica a este blog, mas fico sem saber. Afinal, a autora critica o blog (que não sei se será este) de ser decadente (este não é de todo decadente), deprimente (até é bastante alegre), fútil (ora, um blog em que se fala dos assuntos que este fala não será fútil), pobre de espírito (enfim) — e pelos vistos ando a relatar o que ando por aí a fazer pelas camas desse país fora, o que me fez sorrir. Este blog é tão obviamente ficcional que alguém achar que é um relato verídico dum só casal é curioso. É um blog em que casais falam, na cama, sobre assuntos variados, de forma informal — e sem um pingo de malícia.

 

Se este blog é mesmo o alvo da crítica, acho que a leitora tresleu e inventou um blog quase pornográfico onde está apenas este vosso Conversas de Cama. A leitora avança ainda com a acusação de que é parte dum género que "nunca foge à bruta vulgaridade e ao vazio total de conteúdo (que não seja relatar)". Ora, como este blog não foi uma única vez vulgar e tem até um excesso de conteúdo, enfim, não pode mesmo ser este blog — ou então a leitora só leu as primeiras linhas de cada post.

 

Enfim, tenho de perdoar, afinal se este blog é duma "bruta vulgaridade", o que não serão os outros que andam por aí e até põem fotos de casais a fazer o dito amor?

 

Este blog que aqui tendes, meus amigos, foi uma tentativa, como fiz outras, de expor o mesmo assunto a duas luzes diferentes, usando a base do diálogo. 

 

Mas como não tenho tido tempo para mais blogs, proponho que avancem para o meu blog principal, o Livros e outras manias, onde espero não surpreender ninguém com brutas vulgaridades. Só com livros.

 

Adenda a 19 de Fevereiro:

Estranhíssimo: o post referido acima foi apagado... 

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§ O aquecimento global na cama deles

por Marco Neves, em 17.02.14

Ele: Andam a falar do aquecimento global, mas só tenho é frio...

 

Ela (puxando o lençol para cima, de repente arrefecida): Ora bolas, nunca pensei que fosses desses.

 

Ele: Desses?

 

Ela: Sim, esses broncos que gostam dessas ideias simplistas e que acham que os cientistas são todos tontos.

 

Ele: Mau... Mas és cientista?

 

Ela: Por acaso, até sou.

 

Ele: Raios. Mas, já que agora não vamos fazer nada, explica-me lá bem isso do aquecimento que afinal parece arrefecimento.

 

Ela: Ora, isto são médias!!! A média de temperatura está a subir, e os extremos estão a aumentar, ou seja, vais sentir mais frio e mais calor e, em média, a Terra está a aquecer!!!

 

Ele: Bolas, pára de me atirar pontos de exclamação.

 

Ela: Já percebeste?

 

Ele: Sim.

 

Ela: E se eu não estivesse nua ao teu lado, calavas-te assim?

 

Ele: Sinceramente?

 

Ela: Sim.

 

Ele: Não, discutia e gozava contigo. Mas, lá está, estás nua ao meu lado, por isso estou convencido.

 

Ela: Enfim, que isto sirva alguma coisa de útil.

 

Ele: Isto é mais do que útil!

 

Ela: Sim, continua...

 

Ele: Gosto mais das tuas reticências do que dos teus pontos de exclamação...

 

Ela: ...

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§ Blogs

por Marco Neves, em 16.02.14

Ele: Não achas isto uma grande perda de tempo?

 

Ela: Ora, só é perda de tempo se não gostarmos do que estamos a fazer. E eu gosto.

 

Ele: Sim, mas não achas que podias fazer algo mais... útil?

 

Ela: Achas que vou perder tempo com coisas úteis, quando posso estar a ler e a escrever?

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§ Porto

por Marco Neves, em 15.02.14

Numa cama no Porto, estão os dois a escrever posts no Facebook sobre o Porto.

 

Ela: "A cidade da elegância inteligente, da solidez dos ritos discretos, da serenidade sábia decantada durante séculos, com uma cultura requintada, sem os maneirismos lisboetas. Cidade dum nocturno belo, moderna e conservadora q.b., sabe bem, como um bom livro e um bom cálice de Porto."

Ele: "Cidade velha, suja, incompreensível, provinciana e arrogante, com uma cultura periférica e umbiguista. Ruas estreitas, má sinalização, um constante estaleiro. Fria, triste e confusa, nevoenta e escura, faltou-lhe um terramoto para a desempoeirar." 

 

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§ iPad

por Marco Neves, em 14.02.14

Ele: "A verdadeira revolução dos conteúdos — quem acha que não serve para nada, nunca usou um tablet e quem acha que os tablets são todos iguais nunca usou um iPad. Ler um artigo online sentado à secretária parece trabalho. Ler um artigo sentado no sofá num iPad é um prazer."

 

Ela: "Um luxo de meninos mimados, geeks sem noção do ridículo, uma ofensa em tempo de crise — principalmente porque há tablets muito melhores a muito melhor preço. Uma forma de enriquecer uma empresa arrogante e que apenas melhora o design das invenções dos outros."

Ele: Já reparaste que estás a escrever isso no meu iPad?

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§ Edward Snowden

por Marco Neves, em 14.02.14

Numa cama, no dia dos namorados, a meio da tarde, onde foram, de fugida, por ser o dia que é.

Começa a dar um documentário sobre Snowden.


Ele: O gajo é um traidor, puro e simples, que está a minar a capacidade dos países democráticos de se defenderem. Depois, vai e refugia-se nesses grandes paladinos das liberdades individuais: China e Rússia. Enfim. 

 

(Silêncio. Ela pega no telefone e escreve no Facebook.)


Ela: "Edward Snowden é um herói que desafia o mais poderoso e assustador sistema persecutório mundial para mostrar ao mundo a verdadeira face do cordeiro democrático, que não passa do maior lobo de todos os tempos."

 

(Horas depois, ele vê o post e sorri. A noite vai ser gira.)

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